Como a diversidade está guiando nosso futuro

A diversidade nos estimula a considerar e antecipar pontos de vista diferentes e a nos preparar melhor para o futuro. Além disso, pode melhorar os resultados financeiros das empresas e levar a descobertas irrestritas e inovações revolucionárias. Entenda como a diversidade está guiando nosso futuro.

Felipe Amaral

Felipe Amaral

October 20, 2020 | leitura de 8 minutos

design

Tenho certeza de que você tem escutado cada vez mais essa palavrinha - diversidade - mas você sabe realmente o que ela representa e como ela afeta a vida de milhares de pessoas?

Embora a diversidade esteja se tornado um assunto muito discutido, por senso comum, ela ainda é relacionada a uma pequena fatia do todo. Geralmente associamos diversidade com inclusão de pessoas negras, LGBTQI+ e mulheres. No entanto, existem inúmeras formas de fazer sua categorização, nos diferimos em posição social, orientação sexual e de gênero, cultura, educação, habilidades físicas e cognitivas, renda e muitas outras.

Em NeuroTribes: The Legacy of Autism and the Future of Neurodiversity, por exemplo, Steve Silberman fornece soluções para o autismo, enquanto mapeia um caminho em direção a um mundo mais humano para pessoas com diferenças de aprendizagem. Silberman defende a "neurodiversidade", que se refere à gama de diferenças na função cerebral como condições de Asperger, autismo, TDAH ou dislexia.

Apesar da diversidade ser um grande desafio, praticamos todos os dias, em nossos relacionamentos profissionais e afetivos. Ela é uma habilidade social, como solidariedade, empatia ou perdão, que pode ser aperfeiçoada ao longo da vida. Cultivar nossa capacidade de estabelecer relacionamentos através das diferenças pode, na verdade, aumentar nosso bem-estar, sendo que a socialização é uma necessidade fundamental e a pluralidade cultural é tão necessária para a constituição humana, quanto a biologia é para a natureza.

Quanto mais diversos, mais criativos: os benefícios da diversidade

Em " Sociedade do Cansaço", o filósofo Byung-Chul Han discorre sobre a importância da negatividade, isto é, o oposto, o que é diferente. Segundo o autor, "a ausência da negatividade transforma o pensamento num cálculo", ou seja, quando reproduzimos apenas o que já conhecemos, perdemos nossa capacidade lúdica, deixamos de imaginar e experimentar outras possibilidades. Este excesso de positividade, de re-afirmação, leva à exaustão, pois não permite uma vida contemplativa, que é onde a criatividade reside.

Byung-Chul Han não é o único a pensar assim. Décadas de pesquisas realizadas por cientistas, psicólogos, sociologistas e economistas comprovam que a diversidade é a chave para a inovação.

Quando convivemos com pessoas que são diferentes de nós, somos mais criativos, diligentes e determinados. Isso não acontece apenas porque indivíduos com backgrounds diferentes trazem novas informações. A diversidade nos estimula a considerar e antecipar pontos de vista diversos e a nos preparar melhor para o futuro. Além disso, a diversidade nos convida a refletir - e é claro que as soluções inovadoras que nós queremos não estão em um lugar-comum.

Diversidade nas empresas

Outros olhares, outras realidades, experiências diferentes, novas ideias e habilidades. As vivências e o repertório que as pessoas possuem são fundamentais para formação de um time equilibrado composto por profissionais que se completam. A diversidade é uma vantagem competitiva, ambientes de trabalho inclusivos estão desenhando um novo futuro para o mercado. 

Conforme uma pesquisa da McKinsey & Company, funcionários de empresas comprometidas com a diversidade têm cerca de 150% mais probabilidade de relatar que podem propor novas ideias e experimentar novas maneiras de fazer as coisas.

Os membros de um grupo homogêneo, ou seja, que possuem quase a mesma idade, são da mesma região, da mesma classe social, não tem gêneros distintos, frequentaram a mesma faculdade ou curso, tem o mesmo ponto de vista, não tem etnia diferentes, etc, provavelmente concordarão uns com os outros, vão entender as perspectivas e crenças podendo chegar facilmente a um consenso. O problema com com grupos homogêneos está na falta de diversidade. Como podemos encontrar respostas diferentes se estamos olhando para o mesmo lugar? Fazendo mais do mesmo? A resolução de problemas nestes grupos tendem a ser similares. A falta de diversidade torna a inovação e resolução de problemas um processo ainda mais desafiador.

O fato é que para formar equipes ou organizações capazes de inovar, precisamos incorporar a diversidade na equação. A diversidade aumenta a criatividade. Ela incentiva a busca por novas informações e perspectivas, levando a uma melhor tomada de decisão e resolução de problemas. A diversidade pode melhorar os resultados financeiros das empresas e levar a descobertas irrestritas e inovações revolucionárias.

Entre os principais benefícios da diversidade nas empresas, podemos destacar:

  • Resultados cada vez melhores: um ambiente diverso é cooperativo, estimulante e acolhedor. Dessa forma, nos sentimentos mais motivados a realizar nossas atividades;

  • Menos rotatividade: a alta rotatividade é um grande problema para as empresas, pois gera custos. Como já vimos, um grupo diverso desperta um senso de pertencimento, o que contribui para a redução da taxa de turnover;

  • Menos conflitos entre colaboradores: uma cultura de respeito à diversidade incentiva a escuta e a empatia. Ainda que hajam divergências de opiniões, somos motivados a buscar por um consenso. De quebra, também podemos aprender algo novo;

  • Melhora a imagem da empresa: corporações inclusivas e diversas estão cumprindo com sua responsabilidade social, o que, por sua vez, reflete positivamente na imagem empresarial.

Diversidade e os times de design

No cenário da diversidade qual seria o papel do design UX e UI na criação e desenvolvimento de produtos digitais?

Murilo Fernandes, no blog do UX Collective, indaga: "Será que o design que estamos produzindo atualmente está preparado para atender à todas as pessoas que usam o nosso produto ou ainda, será o que nosso produto não poderia estar sendo utilizado por outras pessoas que não o nosso target primário?"

Para aprofundar esse questionamento primeiro precisamos entender o que cada um desses setores representa. UX ou User Experience e Ui ou User Interface.

UX significa Experiência do Usuário e, de acordo com o ISO 9241-210, a experiência do usuário é definida como "as percepções e respostas de uma pessoa que resultam do uso ou uso antecipado de um produto, sistema ou serviço".

Notamos duas palavras-chave nessa afirmação: percepção, a qualidade de estar ciente das coisas através dos sentidos físicos, especialmente a visão; e resposta, uma réplica, uma resposta ou uma reação a algo.

Veja abaixo a definição de Donald Norman, renomado design thinker e cientista cognitivo, sobre o termo UX:

Portanto, em suma, nossas percepções e respostas definem nossas experiências. A parte perceptiva da definição: Interface do usuário e design gráfico. A parte imperceptível: Experiência do usuário e design thinking.

As percepções e respostas dos usuários incluem as emoções, crenças, preferências, percepções, conforto, comportamentos e realizações dos usuários que ocorrem antes, durante e após o uso. A experiência do usuário é uma consequência da imagem da marca, apresentação, funcionalidade, desempenho do sistema, comportamento interativo e recursos de assistência de um sistema, produto ou serviço. Também resulta do estado interno e físico do usuário resultante de experiências, atitudes, habilidades, habilidades e personalidade anteriores, e do contexto de uso.

Agora vamos voltar ao questionamento sobre o papel do design no cenário da diversidade:

Tendo em vista todas essas definições podemos afirmar convictamente que o Design tem um papel fundamental na criação de produtos digitais inclusivos. Afinal, quanto mais perguntas fizermos para o maior número de pessoas diferentes, melhor conseguiremos responder os questionamentos que podem nos ajudar a encontrar um caminho para o sucesso de um produto. Sendo assim, também podemos considerar que a diversidade tem um papel fundamental nesse processo.

Quando criamos um produto/serviço precisamos nos desligar de todas as amarras que nos previnem de ter um olhar neutro, precisamos nos colocar no lugar das pessoas que são o alvo daquilo que estamos desenvolvendo para criar uma experiência única, ou no mínimo relevante.

Perguntas como essas são de suma importância:

  • "Será que o meu produto atenderá todo mundo de forma igual?"

  • "Essa experiência que estou projetando causará um impacto positivo na vida das pessoas?"

  • "Essa jornada será percorrida de forma consistente por todos os meus grupos de usuários?"

Todos nós gostamos de nos sentir representados, respeitados e valorizados ao interagir com algo. Sempre temos que considerar diferentes perfis de usuários na hora de criar um produto: desenhando a tela, criando um texto, etc. Quanto mais pessoas com perfis diferentes fizerem parte do processo de concepção, mais rápida e mais criativas serão nossas respostas. Afinal, a diversidade traz riqueza intelectual, cultural e uma maior aproximação com a realidade.

Por fim, deixo o seguinte questionamento: Se a diversidade tem papel fundamental no design de um produto digital, como estamos compondo os times de design? Será que eles são diversos ou comumente homogêneos?

"A inovação precisa de olhares diferentes e de variadas vivências, se não estaremos fadados à limitação e à exclusão. As tecnologias carregam a visão de mundo e a cultura de quem as cria." SIL BAHIA, Diretora do Olabi.

Referências:
What is diversity
Diversity still matters
Indo além da hashtag
How diversity makes us smarter
How will social distancing affect us
Diversidade no ambiente de trabalho
Ux design como ferramenta na produção de diversidade
Why graphic design and ui seem to have cannibalised the term Ux
Felipe Amaral
Felipe Amaral

Ux/Ui designer | Preto, publicitário, vegano que acredita que o design pode mudar o mundo 🏳️‍🌈✊🏿

LinkedInInstagramTwitter