Desenvolvimento de software é uma atividade criativa, não uma linha de produção. A analogia da pizza, comum em empresas que subestimam a complexidade tecnológica, leva a expectativas erradas, estimativas irreais e, no fim, produtos ruins. Este artigo explica por que essa analogia é perigosa, o paradoxo das empresas que dependem de software mas não se enxergam como empresas de tecnologia, e como a mentalidade ágil resolve esse problema.
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Bicicletas para a mente
A frase foi dita por Steve Jobs no início da jornada da Apple como uma das empresas que transformaram para sempre a nossa forma de trabalhar. A frase tentava mostrar o computador e a tecnologia como uma ferramenta criativa concebida para resolver problemas e para criar desde arte até planilhas complexas.
Adoro essa frase. Ela sintetiza de forma brilhante o que, para mim, é o desenvolvimento de software: uma atividade criativa. Uma forma de expressar através de algoritmos e arte um pouco de quem nós somos como seres humanos. E, como toda atividade criativa, ela leva tempo para ser feita.
O mito da pizza
Mais de 30 anos depois que Jobs fez a analogia da bicicleta, eu fui trabalhar em uma nova empresa. Tinha grandes expectativas porque a tal empresa tinha uma fama de ser um ótimo lugar para trabalhar. Como tudo na vida, expectativas são, bem, apenas expectativas e logo no início dessa nova jornada eu me deparei com o mito da pizza.
Enraizada nas convicções da liderança da empresa estava a analogia de que criar software e novas funcionalidades para aplicações existentes era como pedir uma pizza de calabresa. Sim, com essas palavras. Uma vez que alguém pede uma pizza de calabresa, a pizzaria sabe quanto tempo vai levar desde o início da montagem da pizza, escolha de ingredientes, tempo de forno até o pedido chegar à sua mesa com aquele aroma característico de orégano.
Então, seguindo essa analogia, qualquer nova funcionalidade em um sistema seria apenas “mais uma pizza”, fácil prever o tempo necessário para ficar pronta, quais ingredientes seriam usados e quando chegaria à mesa. Assim, atrasos e erros nesse processo seriam culpa do pizzaiolo, que não saberia o que está fazendo.
Outra coisa peculiar da empresa era pensar, e tentar se convencer, de que ela não era uma empresa de tecnologia. Por isso, não sendo, o mito da pizza era justificado.
Claro, os processos ainda podiam ser feitos manualmente e controles importantes e críticos da empresa ainda podiam ser feitos em planilhas gigantescas. Atualizações de tecnologia que eram importantes eram deixadas de lado por “não serem o foco da empresa”. E assim a pizzaria continuava tentando fazer pizzas com o mesmo forno pequeno, velho e perigoso que aguentava uma boa fornada diária há mais de 30 anos. E sofria muito para tentar entregar pizzas todos os dias, com pedidos cada vez mais estranhos e peculiares de clientes que pediam pizzas com ingredientes totalmente diferentes. Alguns clientes até pediam para tirar a massa da pizza.
O paradoxo da tecnologia
Trabalhar na pizzaria — digo, na empresa — foi uma grande experiência porque me mostrou claramente o que eu já sabia de forma inconsciente. Nossas empresas, nossos governos e até mesmo nossas escolas não sabem o que é desenvolvimento de software em 2021, onde toda nossa vida, independentemente do segmento ou mercado que você esteja inserido, é controlada ou ao menos auxiliada por softwares.
Usamos software criado, “codado” por alguma pessoa, em equipamentos e processos que vão desde a máquina de cartões que usamos na padaria até a entrega de encomendas pelos Correios. E, pasmem, apenas uma pequena parcela da população sabe o que é software e uma parcela ainda menor sabe escrever software. Um paradoxo em uma sociedade dependente de software para viver.
O artesão digital: como a Ateliware aborda estimativas e desenvolvimento
Desenvolver software de qualidade e com estimativas de prazo e custo assertivas é ainda tema de estudos acadêmicos nas mais diversas universidades e instituições de pesquisa do mundo. Nós, da Ateliware, temos a nossa maneira, que aperfeiçoamos nos últimos anos em projetos para os mais variados segmentos de mercado. E tudo começa entendendo que software não é pizza, é um produto intangível, formado por algoritmos e regras criados por pessoas com base no pedido e desejo de outras pessoas.
Para que as expectativas de ambas as partes sejam alinhadas, é necessário dar um passo de cada vez. Um passo pequeno para que seja fácil voltar se estivermos no caminho errado, mas grande o suficiente para mostrar valor caso o caminho esteja correto. Depois de dar um passo, é preciso olhar ao redor e ver se estamos no caminho certo. E sempre perguntar se estamos com o mesmo entendimento. A pizza de calabresa que eu quero pode ser diferente da sua, pode não ter queijo (coisa que particularmente eu acho um absurdo) ou ter manjericão no lugar de orégano.
Essa é a essência do desenvolvimento de software ágil e algo que nós, da Ateliware, tentamos seguir independente da metodologia usada. Nesse loop de aprendizado, erros são esperados. Queremos que esses erros sejam pequenos e precisamos aprender com eles. A base de todo aprendizado passa pelo erro, não existe aprendizado sem erro.
É um processo criativo, uma construção em conjunto entre nós e a empresa que estamos ajudando. Uma parceria que exige que estejamos sempre olhando para o produto da mesma forma, entendendo os desafios técnicos e de negócio com o mesmo peso e enfoque.
Nosso desafio é mostrar aos nossos clientes que é mais vantajoso dar passos pequenos com eventuais erros no caminho do que dar muitos passos e descobrir que chegamos à cidade errada apenas no final. Muitos, sem saber, ainda acham que fazer software é igual a fazer pizza e nossa missão é explicar que não: computadores são bicicletas para a mente e software um trabalho de artesãos digitais.
Referência: Steve Jobs — Bicycle for the Mind, 1990
Artigo atualizado em maio de 2026.
Perguntas frequentes
A analogia da pizza pressupõe que software é um processo repetível e previsível, como montar uma pizza sempre com os mesmos ingredientes e o mesmo tempo de forno. Na prática, cada funcionalidade de software é única: envolve decisões de arquitetura, regras de negócio específicas e graus variáveis de complexidade técnica. Tratar software como pizza leva a estimativas irreais, pressão por prazos impossíveis e, no fim, produtos com qualidade comprometida.
Desenvolvimento ágil é a abordagem de dividir o projeto em ciclos curtos, cada um com uma entrega funcional e uma oportunidade de revisar o rumo. Em vez de planejar tudo no início e descobrir os erros apenas no final, o método ágil incorpora aprendizado contínuo: dá um passo, verifica se o caminho está correto, corrige se necessário. O objetivo não é eliminar erros, é garantir que os erros sejam pequenos e rápidos de corrigir.
Toda empresa que depende de software para operar, o que hoje inclui praticamente todas, precisa enxergar tecnologia como parte central da sua operação, não como um custo acessório. Adiar atualizações tecnológicas por “não ser o foco da empresa” é uma decisão que acumula risco operacional e dívida técnica. O forno pequeno e velho da metáfora do artigo eventualmente para de funcionar e a pizzaria fecha.
Metodologias ágeis não eliminam a necessidade de estimativas, elas mudam a forma de estimá-las. Em vez de prever o projeto inteiro no início (quando a incerteza é máxima), as estimativas são feitas em ciclos curtos, com base no que o time aprendeu nas entregas anteriores. Isso torna as projeções progressivamente mais precisas ao longo do projeto, ao contrário do modelo em cascata, onde a imprecisão das estimativas iniciais só se revela no final.



